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Segundo biólogos, as árvores falam e nós podemos aprender a língua delas

Eu estou em uma floresta em Santa Cruz, Califórnia, ouvindo as árvores fora da minha cabana. Elas falam constantemente, mesmo silenciosamente, se comunicando por cima e por baixo da terra usando sons, aromas, sinais e vibrações.

Elas se relacionam naturalmente, conectadas com tudo que existe, incluindo você.

Biólogos, ecologistas, silvicultores e naturalistas cada vez mais argumentam que as árvores falam e que humanos podem aprender a ouvir esta língua.

Muitas pessoas têm dificuldades com este conceito, porque elas não conseguem perceber que as árvores estão interconectadas, argumenta o biólogo George David Haskell em seu livro publicado em 2017, The Songs os Trees.

Conexão em rede, diz Haskell, exige comunicação e gera idiomas; entender que a natureza é uma rede é o primeiro passo para ouvir as árvores falarem.

Para o cidadão global médio, vivendo longe da floresta, isso provavelmente soa abstrato ao ponto do absurdo.

Haskell aponta os leitores para a floresta amazônica no Equador para orientação prática. Para o povo Waorani que vive lá, a característica de rede da natureza e a ideia de comunicação entre todas as coisas vivas parece óbvio.

Língua das árvores

Na verdade, a relação entre as árvores e outras formas de vida são refletidas na língua Waorani.

Em Waorani, as coisas são descritas não somente pelo seu tipo, mas também pelas outras coisas ao redor delas.

Por exemplo, qualquer árvore corticeira não é uma “árvore corticeira”, mas é “a corticeira envolta em hera”, e outra é “a corticeira com musgo e cogumelos pretos”.

Na verdade, os antropólogos que tentam classificar e traduzir palavras em Waorani têm dificuldades, porque, escreve Haskell, “quando entrevistados, o povo Waorani não consegue dar nomes individuais para o que os ocidentais chamam de ‘espécies de árvores’ sem descrever o contexto ecológico, como a composição da vegetação dos arredores”.

Pelo fato de que eles se referem às árvores como seres vivos com laços íntimos com as pessoas e outras criaturas ao redor, os Waorani não se assustam com a noção de que uma árvore pode gritar quando cortada, ou surpresos de que machucar uma árvore pode causar problemas para humanos.

A lição que os habitantes da cidade devem aprender com os Waorani, diz Haskell, é que “dogmas de separação fragmentam a comunidade da vida; eles isolam humanos em uma sala vazia. Devemos fazer a pergunta: ‘podemos encontrar uma ética para fazer parte da terra completamente?’”

Haskell aponta que pela história da literatura e da música há referências de músicas de árvores e a maneira que elas falam: pinheiros sussurrantes, galhos caindo, folhas quebrando, o zumbido pela floresta.

Artistas humanos sempre souberam, em um nível fundamental, que as árvores falam, mesmo não dizendo que elas têm uma “língua”.

Redefinindo comunicação

Língua das árvores

A língua das árvores é um conceito totalmente óbvio para a ecologista Suzanne Simard, que passou 30 anos estudando florestas.

Em junho de 2016, ela fez uma Ted Talk (que já tem por volta de 2,5 milhões de visualizações), chamada “How Trees Talk to Each Other”.

Simard cresceu nas florestas da British Columbia, no Canadá, estudou silvicultura e trabalhou na indústria de exploração madeireira. Ela sentiu conflitos ao cortar árvores e decidiu retornar à escola para estudar a ciência da comunicação das árvores.

Agora, Simard leciona ecologia na University of British Columbia-Vancouver e pesquisa “redes fúngicas abaixo do solo que conectam as árvores e facilitam a comunicação e interação entre as árvores”, ela diz.

E ela explicou para a audiência do Ted Talk:

Eu quero mudar a maneira como vocês pensam sobre florestas. Veja, embaixo do solo existe outro mundo, um mundo de caminhos biológicos infinitos, que conectam árvores e permite que elas se comuniquem e permite que a floresta se comporte como um organismo único. Isso pode lembrá-lo de um tipo de inteligência.”

As árvores trocam substâncias químicas com fungos e enviam sementes – essencialmente pacotes de informação – com vento, pássaros, morcegos e outros visitantes que fazem entrega ao redor do mundo.

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Simard é especialista no relacionamento das árvores abaixo do solo.

Sua pesquisa mostra que embaixo da terra existe uma vasta rede de raízes trabalhando com fungos para mover água, carbono e nutrientes entre as árvores de todas as espécies.

Esta rede complexa e simbiótica imita as redes neurais e sociais do ser humano.

Elas até possuem árvores-mãe em vários centros, gerenciando o fluxo de informação, e a interconectividade ajuda a lutar contra doenças e sobreviverem juntas.

Simard argumenta que esta troca é a comunicação, embora em uma língua estranha para nós. E há uma lição a ser aprendida de como as florestas se relacionam, ela diz.

muita cooperação, ao invés de apenas competição entre as espécies, como acreditava-se antigamente.

Língua das árvores

Peter Wohlleben chegou a uma conclusão parecida enquanto trabalhava gerenciando uma floresta de vidoeiro antiga na Alemanha.

Ele disse ao The Guardian que começou a perceber que as árvores tinham vidas sociais complexas, após tropeçar em um toco velho ainda vivo depois de cerca de 500 anos, sem folhas.

Todo ser vivo precisa de alimento”, Wohlleben disse. “A única explicação é de que o tronco era ajudado pelas árvores vizinhas por via das raízes com uma solução de açúcar. Como um silvícola, aprendi que as árvores são competidoras que lutam entre si, pela luz, pelo espaço e lá eu vi que é exatamente o oposto. As árvores têm muito interesse em manter cada membro de sua comunidade vivo”.

Ele acredita que elas, como os humanos, possuem vidas familiares além do relacionamento com outras espécies. A descoberta o levou a escrever o livro “The Hidden Life of Trees”.

Por estar ciente da interdependência de todas as coisas vivas, Simard argumenta, os seres humanos podem ser mais sábios sobre a manutenção de árvores-mãe que transmitem sabedoria de uma geração de árvore para outra.

Ela acredita que poderia levar a uma indústria de madeira comercial mais sustentável: em uma floresta, uma árvore mãe é conectada a centenas de outras árvores, enviando excesso de carbono através de redes delicadas para sementes abaixo do solo, garantindo taxas de sobrevivência muito maiores.

Estudos de língua estrangeira

Língua das árvores

A sobrevivência das mudas é importante para os seres humanos porque precisamos de árvores.

“As contribuições das florestas para o bem-estar da humanidade são extraordinariamente vastas e de longo alcance”, segundo o relatório de 2016 da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação nas florestas mundiais.

As florestas são fundamentais para combater a pobreza rural, garantir a segurança alimentar, fornecer meios de subsistência, fornecer ar e água limpos, manter a biodiversidade e mitigar as mudanças climáticas, diz a FAO.

A agência relata que estão sendo feitos progressos para uma melhor conservação mundial da floresta, mas mais deve ser feito, dada a importância das florestas para a sobrevivência humana.

A maioria dos cientistas – e árvores – sem dúvida concordaria que a conservação é fundamental.

Haskell acredita que políticas ecologicamente corretas naturalmente se tornariam uma prioridade para as pessoas, se nós reconhecêssemos que as árvores são mestres em conexão e comunicação, gerenciando redes complexas que nos incluem.

Ele chama as árvores de “filósofas da biologia”, dialogando através dos tempos e oferecendo uma sabedoria silenciosa. Devemos ouvir, o biólogo diz, porque elas sabem do que estão falando.

Haskell escreve: “Porque elas não sejam móveis, para prosperar, elas devem conhecer seu local particular na Terra muito melhor do que qualquer animal andante”.

Você também acredita que as árvores se comunicam entre si e com a gente? Comente!

Este artigo é uma tradução do Awebic do texto originalmente publicado em Quartz escrito por Livni Ephrat.

Imagens: pexels.com e pixabay.com

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