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Daniel Kahneman: sua intuição quase sempre está errada

No World Business Forum, Daniel Kahneman explicou quando as pessoas podem confiar em seu julgamento intuitivo e quando não deveriam.

De acordo com Kahneman, economista de comportamento ganhador do Prêmio Nobel, não dá para confiar 100% na sua intuição, por isso ela não pode desempenhar um papel quando o assunto é investimento financeiro, por exemplo.

Durante um discurso proferido no World Business Forum em Nova York, Kahneman explicou:

“A intuição é definida como: saber sem saber como você sabe.”

“Porém, essa é a definição errada. Porque por essa definição, você não pode ter a intuição errada. Pressupõe que nós sabemos, e há realmente um preconceito em favor da intuição. Nós gostamos que as intuições estejam certas.”

Segundo Kahneman, uma definição melhor — ou mais precisa — seria que “a intuição é pensar que você sabe sem saber o porquê”.

Por essa definição, a intuição pode estar certa ou pode estar errada, acrescentou.

Porque, de acordo com Kahneman, a intuição está frequentemente errada.

Para mostrar um exemplo disso, Kahneman fez a platéia adivinhar a média de pontuação de uma veterana da faculdade que ele chamou de Julie.

Ele contou à multidão um fato sobre Julie — que ela leu fluentemente ainda muito nova — e depois pediu-lhes para julgar o quão boa estudante ela tinha sido.

A partir da pesquisa, Kahneman — que escreveu o bestseller do The New York Times “Rápido e Devagar” — disse que a maioria das pessoas acha que Julie tem uma média de 9,25.

“Você pode pensar que esta é uma boa resposta”, disse ele.

“É uma resposta terrível. É uma intuição e é absolutamente errado. Se você fizesse isso estatisticamente, faria de forma completamente diferente. Na verdade, a idade que as pessoas leem é pouquíssima informação sobre que tipo de aluno elas serão 20 anos depois.”

daniel kahneman

Crédito: Reprodução | Bloomberg.

De acordo com Kahneman, este é um exemplo de uma intuição que é gerada automaticamente com alta confiança, e é estatisticamente errada.

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“Em geral, a confiança é uma indicação muito ruim para a precisão. Porque as intuições vêm à sua mente com considerável confiança e não há garantia de que estejam certas. ”

Há certos momentos em que a intuição pode estar correta. Por exemplo, explicou Kahneman, jogadores de xadrez e casais geralmente têm intuição precisa.

“As intenções dos jogadores de xadrez quando olham para o tabuleiro (e fazem um movimento) são precisas”, disse ele.

“Todo mundo que está casado pode adivinhar o humor de sua esposa ou do marido por uma palavra ao telefone. Essa é uma intuição e geralmente é muito boa e muito precisa.”

De acordo com Kahneman, que estudou quando se pode confiar na intuição e quando não se pode, há três condições que precisam ser preenchidas para se confiar na intuição.

A primeira é que deve haver alguma regularidade no mundo que alguém possa captar e aprender.

“Então, jogadores de xadrez certamente têm isso. As pessoas casadas certamente têm isso”, explicou Kahnemen.

No entanto, acrescentou, as pessoas que escolhem ações no mercado de ações não o têm.

“Porque o mercado de ações não é suficientemente regular para apoiar o desenvolvimento desse tipo de intuição”, explicou.

A segunda condição para uma intuição precisa é “muita prática”, segundo Kahneman.

E a terceira condição é o feedback imediato.

Kahneman disse que “você tem que saber quase imediatamente se você acertou ou errou”.

Quando esses três tipos de condições são satisfeitos, as pessoas desenvolvem intuição especializada.

“Mas, a menos que essas três condições sejam satisfeitas, o simples fato de você ter uma ideia e nada mais lhe vier à mente e você sentir muita confiança – absolutamente não garante precisão”, acrescentou.
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Este texto foi publicado originalmente no Think Advisor, por Emily Zulz. Adaptação feita por Awebic. Saiba mais sobre o trabalho de Zulz aqui.