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Aceitar suas emoções mais sombrias é a chave para a saúde psicológica

Rumi, o poeta sufi do século XIII, comparou as emoções – “uma alegria, uma depressão, uma maldade” – a “visitantes inesperados”. Seu conselho era deixá-los rir, mas não é isso que fazemos.

Em vez disso, fingimos não notar, ou até os escondemos. Queremos enterrar ressentimento e raiva, ou negociar a solidão pela gratidão, que está mais na moda.

Em uma era cultural que é decididamente pró-positividade, a pressão para suprimir ou camuflar sentimentos negativos é real.

No entanto, estudos psicológicos mostraram que a aceitação dessas emoções negativas é o caminho mais confiável para recuperar e manter a paz de espírito.

Seja praticada através das lentes das antigas filosofias orientais, ou em formas cada vez mais populares de tratamento como Terapia de Aceitação e Compromisso e Terapia Cognitiva baseada em Plenitude, a aceitação das emoções obscuras agora é apoiada por um corpo de evidências conectando o hábito com a melhor resiliência emocional, e menos sintomas de depressão e ansiedade.

A aceitação, portanto, está tendo o seu momento – pelo menos entre os acadêmicos. Mas como e por que ela funciona tem sido pouco estudado, diz Brett Ford, professora de psicologia da Universidade de Toronto.

Não é bem uma estratégia, ela diz: “a aceitação envolve não tentar mudar a forma como estamos nos sentindo, mas permanecer em contato com seus sentimentos e aceitá-los pelo que são.”

Então, ela pergunta, como que aceitar emoções negativas está paradoxalmente ligado à prosperidade psicológica a longo prazo?

Alguns anos atrás, quando Ford era estudante de doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley, ela e três colegas pesquisadoras de Berkeley elaboraram um estudo de três partes para tentar descobrir.

Suas descobertas foram publicadas no “Journal of Personality and Social Psychology”.

De acordo com suas análises, a magia da aceitação está em seu efeito de mitigar as reações emocionais a eventos estressantes.

Aceitação e saúde mental

É esse mecanismo que pode, com o tempo, levar a uma saúde psicológica positiva, incluindo níveis mais altos de satisfação com a vida.

Em outras palavras, aceitar emoções obscuras como ansiedade ou raiva não vai derrubá-lo ou amplificar a experiência emocional. Nem vai fazer você “feliz”, pelo menos não diretamente.

“Você sempre interpreta os efeitos nulos com muita cautela”, diz Ford, “mas para nós, parece que a aceitação afeta exclusivamente as emoções negativas e não interfere nas emoções positivas“.

Além disso, a aceitação parece estar ligada a uma melhor saúde mental quando usada em resposta a emoções negativas, e não positivas, ela acrescenta, por isso não se trata de viver no mundo com uma “atitude amplamente desapegada”.

Não precisa ser tão “de boa”.

Felizmente, a aceitação funciona para muitas pessoas – os pesquisadores descobriram que ela não está vinculada a um único grupo socioeconômico ou racial.

Também parece ser eficaz tanto quando as pessoas estão lidando com sentimentos relacionados a eventos intensos da vida quanto pequenos inconvenientes.

Finalmente, elas afirmam, a aceitação está mais ligada a uma melhor saúde psicológica do que outros modos mentais que se enquadram no âmbito geral da “plenitude”, como praticar a não reatividade, por exemplo, ou simplesmente observar.

“Você precisa prestar atenção à sua experiência interna”, diz Ford, “mas a aceitação, aceitação não julgadora, parece ser o ingrediente-chave para a plenitude.”

Três testes de aceitação

Aceitação e saúde mental

As descobertas de Ford foram tiradas de pelo menos uma e muitas vezes de duas partes do estudo de três partes.

Primeiro, os pesquisadores analisaram as respostas de mais de 1.000 questionários focados em regulação emocional e saúde psicológica enviados a estudantes de graduação da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Foi descoberto que aceitar emoções negativas habitualmente não só reduz os sentimentos de mal-estar (que estudos anteriores haviam demonstrado), mas também que é mais provável que leve a níveis elevados de bem-estar.

Em seguida, os psicólogos recrutaram 156 pessoas da área de San Francisco Bay para uma experiência em laboratório que submetia os participantes a um estressor universal padronizado: uma tarefa de falar em público.

“Nós abordamos as pessoas e dissemos a elas: ‘A propósito, você fará um discurso de três minutos fingindo que está em uma entrevista de emprego e terá que falar sobre suas habilidades de comunicação verbal e escrita'” Ford diz.

A hipótese era que aqueles que haviam sido identificados como pessoas que aceitavam mais os seus estados mentais negativos relatariam emoções negativas menos severas, o que se provou verdadeiro.

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Mais uma vez, os pesquisadores estavam acrescentando sobre o trabalho de outros psicólogos, mas eles também testaram a robustez do método de aceitação, garantindo que pelo menos metade dos participantes selecionados tivesse vivenciado uma grande experiência negativa, como ser traído ou perder o emprego nos meses anteriores ao estudo.

No último estudo, os pesquisadores pediram a 222 pessoas de várias raças e origens socioeconômicas, desta vez recrutadas na área de Denver, para manter um diário no qual eles relataram o evento mais estressante de cada dia durante um período de duas semanas.

Seus hábitos iniciais de aceitação foram medidos antes do período de escrita do diário, e seu bem-estar psicológico geral foi medido através de questionários padronizados seis meses depois.

Aceitadores habituais, vamos chamá-los assim, se saíram melhor do que seus colegas, sejam os incidentes que escreveram pesados (receber um telefonema de um filho na prisão, por exemplo) ou relativamente leves (pequenas discussões com um parente era um estressor comum).

Resista ao impulso de lutar pela felicidade

Aceitação e saúde mental

Líderes budistas frequentemente destacam que “aceitação” não significa ser resignado a uma situação negativa e estressante, especialmente quando a situação está sob seu controle.

Aceitar situações é mais complexo e dependente do contexto, diz Ford. Precisamos aceitar uma morte, mas não precisamos suportar um tratamento injusto de um senhorio ou empregador, por exemplo, e fazer isso pode levar a uma saúde mental pior.

As emoções negativas são diferentes porque são uma parte inevitável do ser humano.

“A vida é maravilhosa de tempos em tempos, mas também é trágica”, disse Svend Brinkmann, professor de psicologia da Universidade Aalborg, na Dinamarca, à repórter de filosofia de Quartz, Olivia Goldhill.

“As pessoas morrem, nós as perdemos, se estivermos acostumados a ter somente pensamentos positivos, então essas realidades podem nos atingir ainda mais intensamente quando elas acontecerem – e elas acontecerão.”

O outro problema em apenas nos permitir pensar positivamente e constantemente buscando a felicidade, é que isso coloca as pessoas em um estado mental esforçado, diz Ford, e isso é contrário a um estado calmo, de contentamento.

Ford acredita que sua pesquisa poderia ajudar a informar futuras intervenções de saúde mental, que atualmente dependem de algumas abordagens que podem prejudicar as pessoas.

“Quando algo acontece e você tenta reformular, como, ‘Ah, não é tão importante assim’ ou ‘eu vou aprender e crescer com isso’, isso não funciona necessariamente”, diz Ford.

As pessoas também tendem a rejeitar esse tipo de reformulação quando seus problemas são graves.

Dito isto, a aceitação permanece misteriosa em alguns aspectos. Os psicólogos não sabem quais fatores influenciam algumas pessoas a aceitar habitualmente emoções que não são tão boas, apesar das pressões culturais para se manterem positivas.

Também não está claro se a aceitação pode sair pela culatra em alguns indivíduos, ou se as pessoas que geralmente reprimem seus sentimentos mais sombrios poderiam perfeitamente fazer a transição sem a ajuda de um terapeuta ou professor zen.

“Meu palpite é que seria um desafio”, diz Ford. No Ocidente e nos EUA, em especial, diz ela, a felicidade e a positividade são vistas como virtudes.

“Algumas empresas querem que seus clientes e funcionários fiquem satisfeitos o tempo todo”, diz ela. “Isso é inapropriado, e quando nos deparamos com expectativas não apropriadas, é natural para nós começarmos a aplicar o julgamento às experiências mentais negativas que temos.”

Como outros hábitos cognitivos, no entanto, a aceitação é uma habilidade que pode ser adquirida. (Uma tática comumente ensinada é pensar em suas emoções como nuvens passageiras, visíveis, mas não uma parte de você.)

E de acordo com um estudo de coautoria de Ford de 2010, os adultos mais velhos usam aceitação mais do que os adultos mais jovens. Como a sabedoria, o traço acompanha a idade, portanto a maioria de nós vai chegar lá eventualmente.

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Este artigo é uma tradução do Awebic do texto originalmente publicado em Quartz escrito por Lila MacLellan.

Imagens: pexels.com e pixabay.com

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