Humanidade

Ex-presidiária se torna empreendedora com ajuda de projeto social

A crua realidade é que depois que uma pessoa que ficou presa volta para a sociedade, lidar com a desconfiança e o preconceito se torna uma luta diária.

Conseguir emprego, entrar e sair de lugares de cabeça erguida e reconquistar a própria dignidade, são questões que Virginia Rodrigues Pereira, de 44 anos, moradora de Poá, entende bem.

Em 2004, ela foi presa acusada de envolvimento em assalto.

A sentença: cinco anos, oito meses e 100 dias de condenação.

Desse total, foram três anos em regime fechado em presídios de Campinas e Butantã, informou o G1.

Virginia ouviu tantos “nãos” em entrevistas de emprego, que embora tivesse saído da prisão, era como se ainda estivesse pagando pelas acusações.

Virginia é empreendedora, gera a própria renda com a venda de salgados e sustenta a família.

O estigma de ex-presidiária a acompanharia por muito mais tempo se em 2016, o projeto piloto “Rexista” de estudantes da Fundação Getúlio Vargas em parceria com o projeto “Recomeçar” da ONG Gerando Falcões em Poá, não tivesse lhe dado voto de confiança e a chance de transformar sua vida.

Virginia recebeu capacitação pelo projeto, se tornou empreendedora e exemplo de superação: uma pessoa capaz de mudar o curso de sua história e garantir o sustento de sua família.

Orgulho

“Não preciso mais depender dos outros para sustentar meus filhos e ter comida dentro de casa. Isso me deixa muito orgulhosa e feliz”, contou Virginia ao site da ONG.

Além do investimento em dinheiro, ela recebeu orientações intensas e capacitação sobre vendas durante três meses.

“Aprendi a como vender melhor, apresentar o produto ao cliente e fazer os salgados com qualidade”, disse ela ao site.

Virginia recebeu o certificado da ONG no dia 18 de junho e desde então trabalha profissionalmente: são mais de mil salgados produzidos por mês, vendidos de porta em porta e agora para eventos.

“Já estou fechando a venda dos salgados para um casamento e também tenho encomenda para aniversários no ano que vem. Trabalho não para enriquecer, mas para continuar a vida e não passar por necessidades.”

2004

Virginia relatou ao G1 que veio de Ilhéus, na Bahia com a mãe e os filhos para morar em Poá, no ano de 1992. O primeiro emprego que teve na época foi em um restaurante no Bresser, em São Paulo.

Neste local, ela conheceu o namorado, que tinha dois irmãos e que dizia estarem os três se livrando do vício com drogas.

Quando surgiu a oportunidade de trabalhar em um lugar melhor, com eventos, Virginia indicou o namorado e os irmãos dele. “Eu já namorava há mais de um ano e minha vida tomou outro rumo”, disse ela.

No fatídico dia, Virginia seguia de táxi com o namorado e os irmãos dele para um evento. A empreendedora detalhou as circunstâncias de sua prisão ao site do G1:

“No meio do caminho, fui surpreendida. Um dos irmãos puxou a arma e colocou na cabeça do taxista. Eu gritei, fiquei horrorizada. Não esperava aquilo. Em certo momento, o taxista se jogou do carro, perto de uma base da Polícia Militar. Depois de alguns metros, havia um cerco. Pararam o carro e mesmo dizendo que eu não tinha nada a ver fui presa, porque o taxista me reconheceu como ocupante do carro.”

Enquanto esteve presa, Virginia “fazia o cabelo e unha de outras detentas, fazia almoço e doces”. No regime semiaberto, ela pôde trabalhar em uma firma. “Eu sempre tentava me manter ocupada”, contou ela ao site de notícias.

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Encarar o mercado de trabalho, após sair da prisão, foi difícil para Virginia.

Ela contou ao G1 que não tem grau de escolaridade para conseguir um bom emprego e embora tivesse feito alguns bicos de faxina, não conseguia trabalho fixo:

“As pessoas têm muito preconceito, já ouvi muito não. Uma vez fui fazer uma entrevista de emprego e a entrevistadora falou pra uma funcionária: ‘olha o que mandam pra mim. Vai me fazer refém?’. Era humilhante.”

Amparo Social: Projetos “Recomeçar” e “Rexista”

“Essa parceria veio para dar amparo social e moral e empoderar essas mulheres, mostrando que elas podem ‘virar o jogo’ e até ser a chefe da família, com renda digna.”

Essas são as palavras de Leonardo Precioso, coordenador de empregabilidade da ONG Gerando Falcões.

A capacitação de mulheres que já passaram pelo sistema penitenciário é o objetivo do projeto Rexista, iniciativa criada pelos estudantes da Fundação Getúlio Vargas. Já a ONG Gerando Falcões, por meio do projeto “Recomeçar”, “encaminha os egressos ao mercado de trabalho”.

Quando os estudantes descobriram a ação da ONG, decidiram criar um trabalho voltado ao público feminino:

“Visitamos o Gerando Falcões, conhecemos os projetos e decidimos apoiar as mulheres que já passaram pelo sistema penitenciário. Foi então que o Leo [Leonardo Precioso] nos apresentou a dona Virginia”, disse a líder da ação, Ana Teresa Saad ao site da ONG.

“Quero defender o pobre”

Virginia é puro orgulho do que conquistou, justamente por causa de sua trajetória. A mulher que um dia não teve esperanças de mudar sua vida, agora deseja terminar o ensino médio e fazer direito:

“Quero fazer Direito. Quem é pobre e não tem como pagar um bom advogado, não tem como provar sua inocência. Ninguém pode ser punido por um crime que não cometeu. Quero defender o pobre”, contou ao G1.

A esperança de Virginia foi reavivada e sua história é a prova de que projetos sociais funcionam para restabelecer a dignidade de cidadão de pessoas que passaram por situações difíceis como esta.

Esta é uma história que proporciona a reflexão de que existem pessoas lá fora que precisam de uma única chance para mudar sua história e projetos que desejam oferecer esta única oportunidade.

Fontes: gerandofalcoes.com, globo.com.

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