Cientista explica como macacas agem para anular dominância masculina
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Cientista explica como macacas agem para derrubar a dominância masculina

Não temos dúvidas de que estudos de cientistas como Charles Darwin contribuem até hoje para descobertas e pesquisas.

Mas você já deve ter reparado como o cenário científico é composto, em pleno século XXI, por uma maioria masculina, e que muito raramente – tanto homens quanto mulheres – questionam a participação feminina nesse espaço, não é mesmo?

Muito desse comportamento automático se deve a uma repetição de padrões imposto por seres humanos que acreditavam ser “natural” que todos os animais do ecossistema terrestre vivam em sociedades patriarcais.

Ter um “objeto para ser amado e para brincar com ele”, “ter alguém para cuidar da casa”, e os “apreciar os encantos da música e do bate-papo feminino”:  estes são alguns dos prós do santo matrimônio, de acordo com o célebre naturalista (e desesperado romântico) Charles Darwin.

Em 1838, ele escreveu um bilhete para si mesmo, pesando também os contras de uma casamento: “ser forçado a visitar parentes”; ter “menos dinheiro para livros etc”, e “talvez disputar”.

Seis meses depois de deduzir, orgulhosamente, que uma esposa seria “melhor do que um cão”, Darwin casou-se com sua prima, conforme o costume vitoriano de mestiçagem.

“Ele nunca escreveu uma lista de razões pelas quais ele seria ou não um bom marido”, observa a Dra. Amy Parish, antropóloga biológica, primatologista e “feminista darwinista”.

Mulheres na ciência?

Quando Amy chegou à Universidade de Michigan como graduanda, na década de 1980, ela notou “um antagonismo” pairando entre os departamentos de Ciência e Estudos de Gênero.

A ciência era (e ainda é) uma disciplina dominada pelos homens, e os psicólogos evolucionistas que são favoráveis ao “essencialismo” usavam a ciência para validar as normas patriarcais.

Em outras palavras, o essencialismo praticado na época era o seguinte:

“Todas as mulheres querem um homem mais velho e com recursos, e todos os homens querem uma fêmea jovem e fértil. Isso era chamado de “essencialismo” porque considera que há apenas uma essência para o homem e para a mulher”, explica ela.

Ela diz que seus professores diziam coisas como: “Olhe para os chimpanzés; eles têm um padrão de dominância masculina, e os seres humanos também. [Isso mostra que] talvez tenhamos um domínio masculino nos últimos cinco milhões de anos, desde nosso último antepassado comum.

Dessa forma, a ciência tem sido usada para sugerir que a dominância masculina é natural.

Nasce o feminismo darwiniano

Insatisfeita com essa abordagem, Amy e suas colegas cientistas feministas (incluindo “a fêmea alfa da primatologia”, Sarah Hrdy) notaram que muitas pessoas estavam fazendo as mesmas perguntas:

Quem tem poder? Como você conseguiu isso? Como se usa? Para que é bom?

Então ela pensou:

“Por que não temos conversas em que feministas e cientistas podem se informar uns aos outros?”

Assim, o feminismo darwiniano nasceu, e continua a evoluir – a si mesmo, a ciência e a sociedade.

A sociedade matriarcal das macacas bonobos e o feminismo científico

Durante os últimos 20 anos, Amy estudou populações de macacos bonobo, um tipo de chimpanzé encontrado nas florestas tropicais da República Democrática do Congo.

Juntamente com os chimpanzés, eles são os parentes vivos mais próximos do Homo Sapiens.

Mas, ao contrário de seus primos, as bonobos nunca foram conhecidos por matar sua própria espécie e, além disso, vivem em sociedades matriarcais.

“Os bonobos fêmeas usam seu poder coletivo para controlar os alimentos e dominar os machos. “

Como elas fazem isso?

Por meio de amizades muito fortes com outras fêmeas!

Parte da relação estabelecida entre elas é sexual, “há muitas interações sexuais umas com as outras”, diz Amy.

As bonobos também se apoiam mutuamente, formando côrtes que usam seu poder coletivo para controlar os alimentos e dominar os machos.

Elas também são mais agressivas que os machos, justamente para se manterem no poder.

Mas esse comportamento causa estranhamento nos seres humanos.

“Em vários zoológicos, presenciei fêmeas atacando machos e a equipe de todos eles pensava que havia algo de errado com os machos (…). Nunca lhes ocorreu que este poderia ser o padrão natural – que as fêmeas simplesmente estavam no comando.”

Usando machos para ter comida

Antigamente, havia uma norma social em que os homens se comportavam como “ativos” na tentativa de acasalamento, e as fêmeas esperavam a permissão cultural para fazer suas escolhas sexuais.

“[Mulheres] desenvolveram novas estratégias, como oferecer um café do Starbucks com seu número de telefone.”, diz Amy.

Mas, analisando o comportamento feminino, é interessante observar o entusiasmo por um jantar em um restaurante agradável, oferecido por um homem. Nós simplesmente queremos o jantar.

Mas o que isso tem a ver com as bonobos?

Amy viu versões semelhantes (talvez melhoradas) desse comportamento em bonobos.

Mas como elas amadurecem, param de passar pelos machos para acessar comida. Elas simplesmente vão lá e pegam seu alimento.

Por outro lado, se os machos quiserem comida, devem dar algo em troca.

E o que eles têm a oferecer?

Sexo!

De acordo com a cientista, a ideia padrão de que os machos são mais sexuais que as fêmeas é uma verdadeira distorção de pensamento das pessoas.

“Isso volta a Darwin. É um pensamento que vem da religião e de valores vitorianos: a mulher recatada, relutante que tem de ser persuadida: ‘O quê? Você quer este alimento? Ofereça-me sexo e nós teremos esta troca.'”

O comportamento das macacas mostra que os papéis de gênero não foram definidos na Idade da Pedra, tampouco pelo essencialismo; eles são muito fluidos, e as fêmeas podem ser tão sexuais quanto os machos.

Aprendendo com macacos

Quão diferentes são os seres humanos dos nossos parentes primatas?

Amy afirma que há muito mais semelhanças do que diferenças.

“Os seres humanos sempre querem pensar que são especiais, únicos, [que estão] no topo. Na maioria das vezes, nós não somos.”

Nem os seres humanos como espécie, nem os homens como gênero são superiores.

“O objetivo do feminismo é fazer com que mulheres sejam como irmãs (…). Podemos falar sobre tudo o que o feminismo humano conseguiu, e sobre o longo caminho que temos pela frente, mas eu diria que este ‘copo’ está 60% cheio para os seres humanos e 99,9% para os bonobos.”

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Fonte: broadly.vice.com

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